quarta-feira, 23 de março de 2011

água benta



Existe uma saudade maldita que me acompanha, espia e aperta minha carne.

E crises de abstinência solidificam sua presença em miragens lúbricas no cinema da minha mente.

A boca sequiosa à espreita de uma gota dos seus líquidos, e nada mais há que mate essa sede e acalente meu instinto, do que a força da sua língua alterando a minha percepção.

Minhas pupilas dilatam e crescem buscando te alcançar a qualquer distância.

Meu couro se arrepia e transforma meus pêlos em espinhos selvagens que esperam ser domesticados e amaciados por seus dedos viris.

O corpo revolto pela vontade de ti junto a ele, a pulsação alcança velocidade de avião, e palpita urgente, implacável e revelador.

E tudo que há em mim acusa, me expõe, e não há disfarce que disfarce meus sentidos exaltados e meu cheiro exalado.

A minha roupa, os lençóis, os travesseiros e coxas se encharcam enquanto esperam sentir seu peso sobre as minha ancas.

A temperatura queima tudo em volta, e tenho febre de causas e efeitos.
Febre terçã. De ansiar, esperar, ter, tocar, imaginar, sentir, vibrar.

Surto. Pertubação. Agitação. Desordem.
Colapso no vácuo dos meus braços e no vão das minhas pernas sem seu preenchimento.

Não há água suficiente no mundo que abarque a liquidez da sua rigidez convicta e insolente.

E deságuo meu sal, meu suor e mel pra dissipar sua ausência que cresce em proporções ameaçadoras junto ao meu anseio imodesto, petulante e atrevido.

Abro os olhos pra não ver, mas sua ubiquidade me assalta e rouba todos os meus sonhos, deixando em troca seu gosto cravado no céu da minha boca, entorpecendo as papilas com deleite, doçura, dureza e rudez.

Então fecho os olhos, e sua ausência material reflete toda a minha fragilidade, todas as minhas águas, todo o meu mergulho na sua nostalgia, toda a fantasia da minha avidez que é crua, é nua e é sua.

E já não quero mais saber do que se passa lá fora, porque tudo o que me interessa só pode advir de dentro de nós.

Sinais de antropofagia se apropriam de mim. Canibalismo. Te comer entrelinhas e saciar a fome das minhas entranhas. Tateio meu corpo doente na esperança de que venhas logo e me salve.

Corpo açoitado, desejo santificado, oro e suplico, venha, abençõe-me, e jorre sobre mim sua água benta. Porque persevero no prazer minha fé maometana.

E porque ainda és meu óleo e minha benção, minha cura, minha unção, meu prazer e meu pão.