quarta-feira, 23 de agosto de 2017

linha de partida...


Parou. Chegou até aqui. 
Tudo que engoli sem digerir. 
Fechei meus olhos. Só vi o que quis.
Tapei meus ouvidos.
Calei minha língua. 
Entorpeci meus sentidos. 
Busquei distração. Disfarcei. Entretive.
Me 'achei', me presumi, me supus. 
Perseverei convicções, me confundi, me perdi. 
Me anulei, omiti a verdade de mim, me menti.
Ousei ir sem sair, falei sem concluir.
Soluços abafados com medo do fim. 
Não dá. Pardon. C'est finni.
Percorri a tropeços caminhos imaginários. 
Estradas acidentadas me deixaram estropiada. 
Caí. Morri. Quase não resisti. 
Mas restou vida em mim.
Esse ser me afoga e não me preenche. 
O espaço não me cabe nem combina com a minha verve. 
O som não me enxerga e me ensurdece. 
O horizonte não me ouve e essa luz ofusca minhas retinas. 
Cheguei enfim na linha de partida.
Agora me sento no alto da minha própria derrota,
e observo os estilhaços lá embaixo.
E mesmo que esse ser venha semi nu, 
eivado de súplicas e inebriantes anedotas,
mesmo que ofereça sua cabeça a prêmio,
seus dotes como oferenda,
mesmo que prometa o mar e o mundo aos meus pés,
mesmo que intencione deslizar sua língua entre as minhas pernas,
mesmo assim, hei de insistir, é tarde demais,
apresento-lhe o testamento de valores depreciados,
e arranco enfim a semente que havia brotado,
salvando minha fé dúbia no caráter humano.
Agora eu preciso partir, e ir... 
E vou, vou, vou...
Até onde não mais existir, onde nada é palpável ou comensurável.  
Preciso chegar onde só posso ser o que sinto, 
e ser enfim o que sou. 
Eu vou pra sempre, e pra nunca mais.
A verdade tem mão única e passagem só de ida.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

a arte de ser salomé


minha arte é utopia incendiária da esperança

eu busco meu ser e a arte do não ser

minhas fantasias são sonhos surreais verídicos

eu aposto todas as fichas nas minhas quimeras

não tenho nenhuns pudores, só quero que se faça amores

eu pago à vista pra ver o invisível onipresente

eu não te pego na saída, eu te pego mesmo é na entrada

eu entendo os que me copiam e fingem não me ver

eu garanto minhas verdades e coloco o dedo nas feridas


não peço aquilo que me pertence

tomo pra mim as dores do universo

não posso ser feliz vendo o mal do mundo

infelizes são sujeitos incompreendidos e incompreensíveis

o acaso me parece o destino improvisando

só me faz falta os que estão presentes

eu nego até a morte a sorte do merecimento

não barganho sentimentos, favores ou amores


realidades são menos perceptíveis aos olhos do que ao coração

a minha moda é a transgressão dos modos

não vim nesse mundo pra me distrair...

...talvez não seja certo, mas nem pra ser feliz

não tenho palavras diante a ignorância

eu morro todos os dias e aceito todos os finais

nenhum mal perdura pela eternaidade

há vida além da sorte 

há amor além da vaidade

há verdade além da realidade





sexta-feira, 26 de junho de 2015

vir-a-mar

és tão bela quanto parece, ou essa luz te beneficia...

...ou ofusca minha percepção


um ser tão deslumbrante e delicado seduzirá o seu algoz

e a soberba da nobre intenção diminuirá a disposição dessa humilde alma

e a força da minha natureza se fará verossímil quando eu cair em prantos diante minha fraqueza

e a sutileza da minha ignorância abalroará meu coração e o matará

e se a minha coragem encontrar o medo no meio do caminho e resistir

eu me entregarei

e dos restos de mim não sobrará uma única partícula do que achei que fosse

e eu morrerei...e nascerei de novo

e se o ser tão vil vir-a-mar, então o ser tão vir-á-mar


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

não me falhem os pés

eu sempre quis voar

só peço agora My Lord, que meus pés não me falhem

eu preciso caminhar pra longe

até alcançar alguma liberdade

chegar na minha linha de partida

distante desse caos que se anuncia

fugir daquela tristeza estranha que aparece no fim de férias

pois nem o sorriso mais sincero

foi capaz de me fazer sorrir hoje

a cada passo, um filme na cabeça, alfinete no coração

vai, tenta se divertir no percurso, que a estrada é longa

uma vez Ele me disse: divirta-se, mas não distraía-se jamais

descubra seu lado selvagem e resista às tentações

são demais os perigos do encantamento

ser são é essencial em momentos de perversão

não precipite meras vontades, desejos ínfimos

a vaidade é nitroglicerina pura

e às vezes vence o amor 

e sempre precede o mal

mesmo parecendo bom

o tempo é implacável

e isso ajuda sempre

mesmo parecendo mal 

bem lá no fundo seremos sempre muito solitários

acompanhados de nossas caixas pretas

não te assustes com essa perspicácia

ela existe pra nos salvar

tudo pode ficar bem depois das últimas palavras

não pense no fim, no medo, nem na morte

é preciso morrer pra viver

meu caminho é em busca da verdade

um dia eu a acho, ou ela me encontra

e se a verdade não te liberta, nem conte comigo

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

foda

os mesmos artifícios e joguinhos usados pra conseguir sexo, mata o amor

acabam sonhando demais por viver pouco

vivem contando dinheiro antes de dormir

fazem da vida uma roda viva na selva sem saída

1 grama de pó deveria ser revertido em doação para vítimas da discórdia

fumam cigarros e se auto flagelam

somam anos de sofrimento e acumulam nicotinas

reclamam da vida e redimem a inércia com doses de vodka e pai de santo

ausência do amor em prol da presença do metal

eu queria amar, ser amado, mas sou muito ocupado

foda a todos e foda-se os outros

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

tudo ao léo


Chegou como quem carrega vento nos bolsos. 
Brisa de outono. Um assobio. Cheiro de chuva. 
No primeiro ato, sussurrou.
Tu me encantas. Desculpe a ousadia. Te quero. 
Sem mais. Sem menos. Nem manso. Nem buliçoso.
Intenção direta. Charme reto. Insiste. Cativa. Persiste. Instiga.
Jeito meigo. Ar obstinado. Decidido. Agridoce. 
Expõe. Declara. Mostra. Revela.  
No meu café da manhã. No meu vinho da noite. Aparece. Cresce.
Faz-se presente. Não me esquece. Oferece o que tem de melhor. 
Assoprou no meu ouvido - Se tu não me queres. Não me importo. Te quero mesmo assim. Vou te mostrar.
Ocupou minhas paredes. Despertou minhas palavras. Arrebatou meu silêncio.  Fez-me lê-lo.
Adormecia. Amanhecia. Extraía meu tempo pra ele. 
Três, onze, vinte minutos, mais de hora. Todo dia.
Bonjour...Ça va...Bonne nuit...Et plus. 
Muitas linhas. Entrelinhas.
Desenhou, rabiscou, escreveu, pintou.
Dos métodos mais leais, abusou. Carvão, poesia, guache, mensagem, óleo, música, vídeo, acrílico, café, flor, bombom, Paris, vinho...Incita desejos, desperta o encanto, enaltece a imaginação.
Silêncio da noite, segredos do quarto, mensagens no face, rola pra cima, rola pra baixo. 
O som que exala, o sotaque que diz, terno olhar triste, sorriso de criança, cheiro indecifrável, a palavra certeira, histórias incríveis cheias de verdade. 
Suas mãos. Meu coração. Seu nome em minhas orações.
E antes do primeiro encontro...já se passaram meses. 
Aguenta. Paciência. Persevera. Não desarreda. 
Ousei o desencorajamento. Pouco adiantou. Não se mete medo em quem sabe o que quer. Veio atrás. Chegou na frente.
Medo é para desavisados, criadores de linhas imaginárias que os separam do mundo. O mundo todo é seu desejo mais íntimo.
Me diz: És confusa. És hermética. Ereta. Forte. Brava. Deserta. Certa. Sou. 
E antes do abraço, do laço, antes mesmo do beijo, o embaraço.
Como um fado. Testilha. Nó.
Volta. Me chama. Invita. Quer ver de perto. Vem. Senta aqui. 
Banco de praça. Vinho na taça. Desata o nó.
Me olha, inibido, desvia, volta o olhar, faz frio, transpira as mãos, inquietas, sem lugar, fala, encosta, esquenta, macio, o lábio, tato-contato, face na face, antes do beijo. Eu rio, (só)rio.
Aproxima. Leveza. Chega mais perto. O toque. Poros. Cheiro. Hálito. Respira. Expira. Inspira. Pulmão. Coração. Mãos. Me beija... É forte. É quente. Intenso. Demora. Profundo. Mergulho. 
Já não escuto. O barulho agora é longe. Dois corações bem perto. Mudos. 
Baixei minha guarda, ergui minha saia. Eu me rendo. Desabotôo o coração.
Se convida pra ser meu. Pode entrar. Eu estou aqui.  
Bagunça meus hormônios. Acelera minha verve. Dá vida ao inacreditável. Desequilibra o meu desequilíbrio. Me arrefece que eu sou febril. Vem com tudo. Sinto você em mim.
Transpõe o tempo, o limite dos corpos. Conexão. Interpenetração. Madrugada adentro. Manhã lá fora. Pára tudo. Nada interrompe.
Eu já não sonhava, os sonhos que me sonham agora. Extrai meus segredos. Liberta minha dor. Não sei mais as horas. Perdi o juízo. Ganhei os sentidos. 
É agora ou já. Me transporto, me solto, me deixo ser, ir, me dou, despropósito de propósito. 
Desperta o sorriso, me faz querer, enfrenta o medo, liberta o que eu não digo, escancara, adocica a fera. 
Provoca a vida que habita em nós. À mostra os dentes, na boca escancarada que beija, fala, sussurra, declama. Pulmões pulsantes sustentam nossa força, o arfar. Desata e ata as entranhas que só nos pertence. Enrijece a musculatura que arde, estica, puxa, alonga, encolhe, ajoelha, treme. Ar na goela, geme, assopra, diz, grita, cala. Línguas se encontram, se perdem, desencontram, encostam, se acham, sentem, temperam, destilam, degustam o gosto que vem do corpo, quente, doce, ácido, amargo. 
Tudo é leve, sacia e entorpece. Cura. 
Fome de vida. Fome de amor. Fome de mim. Põe pra dentro o que está fora. Me come. Te como. Antropofagia.
Overdose de pura vontade. Altas doses de desejo todo dia. 
Enche o tanque. Vai à luta. Armadura.
Levanta a cabeça. Obra divina. Respira. Levanta. Se inspira.
Se mostra. Te mostro. Me quer. Te quero.
Pega minha mão. Vem junto aos meus pés. Nos levamos pra passear. Vamos beber sol. Ouvir lua. Saborear vento. Navegar neste flutuante azul. 
Seja meu par. Compartilha do meu pão e da minha liberdade.
Me seduz com seu sorriso infante. 
Me inebria com o etílico do alentejo. 
Me vicia com seu carinho inteiro.
Me intoxica com essa disposição infinita. Eu sei, guardou pra mim. 
Me põe nos seus planos, me faz seu amor, me chama, me aguça, me enleva, me embevece, me acelera, me enriquece, me acalma. 
Me deita no colo, me deixa pequena, caibo inteira em você, e você em mim. Somos enormes. 
Me prende, me solta, me devora, me atiça. Vem aqui. Passa cola no meu peito. Abraça forte. Gruda em mim. 
De você não dá pra sair, nem por despejo ou desespero. 
Nada foi ao léu...Sentir é o melhor de existir.
Amo você e o mundo todo, assim como você a mim e o mundo a ti.
Então ficamos assim. Eu te cuido e você cuida de mim. 

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Nina desagrada


Desculpe, mas eu vou te desagradar
se eu não agrado nem a mim mesma
mesmo devendo ser eu a pessoa mais importante pra mim
não queira você
que eu agrade você
segundos, terceiros
ou outros vindouros
protagonistas, antagonistas, coadjuvantes ou figurantes
desculpe, não dá
eu vou te desagradar.


segunda-feira, 30 de junho de 2014

caixa preta


Vibração, ânimo, força, determinação. Tais palavrinhas de ordem, exaustivamente pronunciadas, embalavam-me.  Eu, sobrecarregando razões - pretextos, justificativas. Convicções!?
Mas, não mais que de repente, uma coisa se perdeu no caminho. E o caminho era curto até, podia eu voltar se quisesse. Mas não. Não vou retornar. O regresso sempre é uma estrada tãooooo longa... Preciso continuar o caminhar. Em frente, para os lados, para cima, para baixo. Para trás, jamais. 
Não se recupera o que já foi. O tempo. Foi o que já era. E o que passou não existe mais, a não ser dentro de quem se omitiu, ou mentiu pra si mesmo no momento que tudo aconteceu, e não se resolveu, ou mal resolveu. 
Interessante como o verbo desfazer se desfaz como fumaça, no vento e no tempo.
Então eu vinha. Mas esqueci porque vim.
Vim mas não sei mais porque estou aqui.
As razões me encheram de nada. Não me explicaram o tudo, nem o pouco. E nunca me convencem do porvir. E do que será. 
O que é necessário pra mim? E pra você? E o que importa de verdade na verdade?!
Quais razões seriam suficientes para fazer crer, viver, amar...
Existem razões que convencem sobre o porquê do querer? Do amar? Sobre o viver? Sobreviver!(?)
Alguém?! Você tem alguma razão convincente suficiente aí? Por favor, manda pra mim. 
É como ter a audácia, ou melhor, a empáfia pragmática de supor interpretar poesia...É tão impróprio como o amor próprio.
Eu não tenho razões. Todas perdidas. Me abstenho. Procuro viver bem sem. Escolhi acreditar que tudo é pra sentir, e nada é pra explicar. 
Crer, orar, doar, admirar, degustar, cheirar, pegar, beijar, amar, amar, e amar...até o avesso dos ossos, até o fundo do poço, até o restolho do bagaço, até o verso e inverso do certo e do incerto, contagiar, expandir, emanar, unir, ratificar, consentir. Dar o alimento pra toda fome, seja lá do que for.
Poder tudo sentir...ao perder razões, justificações e convicções.
E sempre existe aquele que chega carregado de razões e as defende com facões. Pode ser ou fazer algum sentido?
O sentido da desorientação rumo ao pertencimento de uma desorganização secreta. 
Voilá! Abram suas caixas pretas! 



quarta-feira, 11 de junho de 2014

declaro-me minha



hoje vai ser assim
do meu jeito
posso até fazer o que você quer
mas na hora que eu quiser

não se engane

não sou especial
sou só espacial
te ocupo, me ocupo, me sobro
e vou

a imensidão do vazio

é muito maior
que o cheio do tudo

na multidão não me reconhecem
vou sem disfarce
máscaras são desejos estéticos
um supor ser
meu avesso é o lado mais certo

eu boto a cara

essa mesma que tenho
tanto pra surra quanto pro gozo
já aprendi

pode rolar dor
tapa, voadora, porrada
e quem sabe, até beijo no final
mas não é sempre assim
depende do aguçamento
do instinto
até de sex appeal
mas primordial é o querer

alguém não me mete medo

alguém não me mete nada
a não ser o que eu quero e peço

não devo nada a ninguém

só pensa a cia de telecomunicação
que sempre me cobra sem razão
mas não me importo
não preciso de tele
para comunica-ação
faço bem sem

bota cadência e toma tenência
o que é meu sou eu
e ninguém tasca
eu compartilho
com a condição de devolução

e fica avisado

gaiolas sugam meu encanto
o sangue fica morno
e morro em vida

se eu gritar você vem
sem demora
que encontro não há
se me faz esperar

preciso de mim agora

adeus




terça-feira, 27 de maio de 2014

você não é



tire-me daqui, não posso mais, não suporto essa endrômina
tudo aqui é feito de plástico, criação para o ludíbrio
em segundos se desfaz, em tempo menor ao de uma cagada
me tira daqui, não quero isso, nem aquilo
a cada dia que passa, passo a dar menos importância
ao que todos julgam importante
e quem julga?
você se cansa, você sofre, você corre atrás, de quê?
você parece tão infeliz, mas sempre finge tão bem
está tão exausto e não consegue mais dormir
são as vestes de estilo, o carro novo made in Japan, a linda casa decorada, seu cachorro com cheiro bom
você abarrota o tempo com tantas coisas
você mata o tempo, você se mata
você tenta, você tenta, você não vive
você não passa de uma invenção, criou sua imagem e agora investe tempo em alimentá-la
se esforça para o mundo acreditar no que quer que ele acredite sobre você
sua ilusão é tão inconsciente quanto a sua respiração
você é tão doce, por que insiste em ser amargo?
qual das faces sobreviverá, a que julgas ser ou a que pensam sobre você?
eu não me importo mais, eu não quero, e nunca quis
me tira do seu retrato, eu jamais estive lá
eu sou apenas um inseto que escapou do escuro da noite
a mariposa que buscou a luz que me encontrou
essa foi minha última dor de cabeça dos últimos tempos
vou cagar essa farsa, acabar com essa dor de barriga
vou cagar pra você que finge, que pensa que acha que é
você não é
vá cagá!

domingo, 11 de maio de 2014

o inextricável

foto by V - Exposição Mr. Brainwash - Galeria Artes - Londres

tudo pode, e algumas coisas até devem, ser esquecidas, dispensadas - pra fôra da despensa íntima! 
novas etapas virão, novos começos se anunciam, e a gente vai junto, não fica pra trás, não dá, a vida é um processo e as fases vão se cumprir e te empurrar, queira você ou não
e você não vai se matar por isso, nem por aquilo
sinto muito quando coisas que pareciam boas não se eternizam, sempre há esse desejo, por óbvio, mas se chegam ao fim é porque nunca foram, e não eram mesmo pra ser
precedentemente havia um cansaço, ele chegou, ficou, ficou, e ficou, atormentou, e venceu, ele já previa, por isso insistia
a estrada cansa nos momentos que tudo se mostra igual, sem novidade, sem cor, ou a mesma cor, sem tesão, sem paixão, o continuísmo do tudo sempre invariável
o que cansa na verdade não é a estrada, nem o corpo, é a mente, a cabeça...
quando estou correndo, canso, e penso, deve ser a paisagem, que não muda - árvores, árvore, arbusto, rio, grama, flores, florzinhas, carro, carros, bicicletas, motocicletas, gente, pessoas, jovens, velhos, crianças, cães, cadelas - as mesmas circunstâncias em continuidade
então fecho os olhos e corro às cegas, pra ver outros cenários, situações, ocasiões, e aí me vem um ânimo, ganho fôlego, e corro mais rápido, sinto os olhares caírem sobre mim, percebo-os reprovando-me: ''ela corre de olhos fechados, será que é cega (?), uma hora abalroa um objeto inanimado ou animado"
mas, como me resta um cadinho de fé, incitando a mudar o rumo, vou, às vezes com pressa, às vezes às cegas, outras vezes bem lenta, no meu ritmo, mas vou, mudando a direção
porque não há nada mais revigorante que uma nova velha invenção, uma re-criação, a providência da imaginação, ou um sentimento bom pra dar aquele up, aquele gás, aquela vontade de fazer o novo, conseguir, e chegar ao podium de partida 
pode ser que eu não vença, mas estou pronta pra mais uma
e aquela dor passada vai passar, eu sei, sempre passa, as minhas sempre passaram, elas não me abatem e não têm força para subsistir ou submeter-me, o sofrimento eu escolho, se aliso ou chuto
saudade não tem fim, uma hora ou outra vem à tona, como doença crônica, pelo menos não dói por muito tempo, nem mata, pode sentir à vontade, eu garanto, não vai doer
imaginação é potencial-mente-real, é quase mágica, faz presente o que está ausente, traz odores, faz ver coisas, sente gostos e texturas
pode tudo acontecer se é o que você quer, nem que seja só pra você, no seu cineminha íntimo, no fundão solitário da retina, não precisa mais nada e ninguém
uma vez li que o cérebro é o mais importante e potente órgão sexual que existe no corpo humano, então, pronto, basta...pardon pela banal analogia, pois isso aqui nada tem a ver com sexo, embora lamentavelmente quase sempre tudo descambe para o sexo
pessoas, pessoas, gentes de todos mundos, sempre querem despertar desejo ou interesse nos outros...bobagens, devaneios, engodos, vaidades...ah se soubessem...
eu, de minha parte, só quero que me enxerguem como sou, não tenho interesse em despertar sensações, talvez o sentimento de amor, puro, indulgente, fácil, e não por mim, mas pelo outro
sem confusões ou equívocos, por favor, me deixem fora disso
basta eu, basta meu caminho, meu renascimento, chega
não quero mais nada, não quero ter ou precisar, já tenho tudo o que me resta, é o bastante
este é o momento que quero avançar no meu processo, por onde eu vou, o que eu sinto e como sou/estou
foi-se-vou-me-só
c'est tout

segunda-feira, 21 de abril de 2014

O BARCO




...E SE FURTEI SUA PAZ, PERDÃO, FOI EQUÍVOCO CONSENTIDO, RETOME-A,

VÁ EM PAZ...



ESSE AMOR ME CONSUMIU

ME EXAURIU

PRESTO TENÊNCIA

AGRADEÇO PELA DOR

E AO CAUSADOR


VALHAM-ME ELES

FOI DEMAIS


PERDIDA EM LABIRINTOS

TÁTICAS NUNCA IMAGINADAS

VIVI, ARDI, GOZEI, SOFRI,

E SEM ARDIS,

SENTI



TUDO UM DIA HÁ DE TER FIM

SEM INTENCIONAR TE CONVENCER DO CONTRÁRIO

TODO AMOR SERÁ PERECÍVEL ENFIM (?)



E SE O ADEUS FOI POR ENGANO

ACEITE ENTÃO, SEM CULPA OU PERDÃO



COMO UMA BOA ARGONAUTA QUE SOU

PROSSIGO NAVEGANDO

DESBRAVANDO, REMANDO


E SE ÀQUELE PORTO UM DIA VOLTAR

LÁ NÃO HÁ DE ME ENCONTRAR



SE FOI UM VÍCIO

CONFESSEI, ASSUMI

ASPIREI FORTE

ATÉ SENTIR O CHEIRO DE MORTE

DESVANECER, CAIR, SUCUMBIR



E NÃO DESISTI AO MENOS

EU SEMPRE VOU ATÉ O FIM



E SEGUIREI A QUEIMAR NO FOGO E ARDER

A ENGOLIR O VAZIO GÉLIDO

DOS RESISTENTES TEMENTES

QUE JAMAIS EXPERIMENTAM O MORRER


segunda-feira, 14 de abril de 2014

bandeirinhas pra boi engolir

Quanto mais leio as várias e diversas mulheres, de todas as categorias, rebanhos e bandeiras (diga-se, aliás, mais dando bandeira que levantando), dissertando, narrando, e falando do gênero da sua espécie, sobre conquistas, lutas, anseios, pré-ocupações, pré-conceitos, insatisfações, e todos os seus questionamentos, respaldados na influência do pensamento feminista de antanhos, diante a geração contemporânea, mais gosto das pós-feministas.
Gente, é preciso entender que essa prosinha pra boi dormir tá mais que ultrapassada! Putz, mudemos o discurso, a linha do pensamento, senão, mulheres do meu coração, ninguém sai do lugar, e daqui 200 anos, se o planeta chegar lá, nossas tataranetas estarão repetindo essas mesmices prescindíveis sobre as roupinhas de menina boa e de piriguete/vadia, os corpinhos modelos e os escusáveis, as lutinhas sãs e as deploráveis, os chefinhos que te reconhecem e os que cagam em você ou te assediam, quem lava a louça, cuida da casa, zela da cria, dirige o carro ou sustenta o hospício familiar. Não há que se ter mais blá blá blá sobre a luta dos 'direitos femininos' em face do hipotético domínio global predominantemente do macho.
Fêmeas, os direitos estão aí, existem, usemos!
Direito ao voto com idêntico peso, ao estudo, a ler e escrever, a lavorar fora de casa, salários iguais, e até maiores, a abortar – em alguns países, a trepar sem engravidar, licença maternidade (afinal, só nós mesmas podemos e sabemos como é parir), a usar calças compridas, dirigir, lei do assédio, lei maria da penha... Somos todos pessoas, com idêntica carne e sangue, é isso que tem que ser considerado. E outra, não há supremacia de xx ou xy, o que tem que haver é o respeito. E a supremacia é de quem está com a razão, sem disputinhas de sexo ou alter ego.
O que precisamos defender é o humano exercendo o direito à supremacia da sua vontade, de fazer o que bem entender, desde que não machuque, engane ou sobrepuje ninguém.
O ser humano, de todo gênero, até no gênero neutro (?) – novidade que li estes dias - são tão iguais dentro da sua desigualdade de cromossomos, que até se confundem. A desigualdade de gêneros deve ser considerada apenas na medida de suas diferenças fisiológicas/hormonais.
As diferenças, igualdades e barbaridades estão pra todos e em todos. Pois, neste mundo habitam, mulheres e homens com e sem pretensões, mulheres e homens com e sem ambições materiais, intelectuais ou espirituais. Há mulheres e homens que gostam e assistem novela. Há mulheres e homens que casam porque querem cumprir os reclames da sociedade, e outros querem casar na igreja porque acham lindo. Há mulheres e homens que querem casar com o dinheiro do outro. Há mulheres e homens que mantêm o casamento fracassado e de fachada para não dividir o patrimônio. Há mulheres e homens incautos, há os que votam em branco e depois reclamam do governo. Há mulheres e homens que se omitem, que mentem, que matam, que não pagam impostos. Há mulheres e homens vítimas e bandidos, mulheres e homens que apanham, que são submetidos, que submetem, que se vendem, que pagam pelo que fizeram, e mulheres e homens que permanecem impunes. Há mulheres e homens que fazem programa, que dão o cu, que dançam em nightclubs. Mulheres e homens que foram traficados, escravizados pelo sexo, pelo dinheiro e pela aparência. E sinceramente, minha gente, essa bandeirinha do direito de não ser estuprado, me parece estúpida de tão óbvia. Estupros acontecem porque existem maníacos, doentes, estupradores, e não porque a vítima está usando mini-saia, decote ou burca. Seja lá qual vestimenta usar, se passar na frente do vilão na ocasião propícia, será estuprada, independente da modinha que a enfeite.

 *O dia que um ignóbil ser ousou passar a mão em mim dentro do ônibus, para sua infelicidade,   eu não gostei, resultado, desceu do ônibus, no meio da noite, na estrada, e na porrada...

Eu, no meu parco entendimento anti-gênero, acho bacana o texto feminista inserido no contexto do comportamento de uma época em que havia abissais diferenças, ou seja, enquanto marco histórico de posicionamento social. Das atrocidades primitivas à coisificação da mulher: luto e morro contra as barbáries de todo gênero e grau por amor à liberdade do ser humano, e não ao cromossomo.
Mas o grande x da questão é que as mulheres ainda estão naquele discursinho meia boca ou mesmo pós acadêmico, ao invés de lapidar e aprimorar a arte de tornar os direitos conquistados efetivos, reais, na prática. Porque afinal de contas, cada um é o que é, e o que quer ser, e só dá as ordens no barraco, quem ‘fizer por onde’, e, ou, será o humilhado e subjugado, quem assim se deixou ser - “Quando a gente manda ninguém manda na gente”. E se ‘escolheram’ ser hipócritas, levianos, infiéis, medíocres, submissos, autoritários, medrosos, indignos, incompetentes, rasos, infames, estúpidos, o são tanto no masculino como no feminino.
Mas, por óbvio e evidente, há seres, humanos, que desconhecem a evolução do mundo e a história, e acabam contribuindo para a confusão das cabecinhas que só engolem o que lhes é dado mastigado, e por isso, infelizmente, são cerebrozinhos menos ilustrados. E aí que as mocinhas lindas, malhadas e desavisadas, e rapazes robustos, machões e ignorantes, acabam por gerar cenas primitivas e grotescas em universidades, ruas, bares e lugares afins, e os senhores ignóbeis e endinheirados, e as madames refinadas e afiadas, abatam-se em tribunais. E se as pessoas desse planeta, que convivem nessa sociedade inadequada, não começarem a se entender e buscar soluções para seus conflitos, estarão para sempre enlameadas nessa merda decadente. 
Então, será o nosso grande desafio (?), conviver com posicionamentos retrógrados sem a capacidade de adequá-los, o máximo possível, ao conhecimento do ser humano moderno.

quinta-feira, 27 de março de 2014

Verena decide morrer


A morte nos causa uma tristeza egoísta, porque somos deixados, ficamos aqui nesta vida mundana, irreal, mentirosa, e o outro vai embora. 
É o sentimento de perda que angustia. Ninguém quer perder. Como se tivéssemos propriedade sobre alguma coisa. Como se fôssemos donos de algo ou alguém. 
E junto com a morte vem a ideia inconsciente da impotência humana. E ainda, a preeminência dos vermes. Tão abominados, enojados, e que com sua pequenez e insignificância irão comer seu corpinho tão altivo, seu cerebrozinho tão inteligente, exceto seu siliconizinho, que vai ficar lá enlameado. 
E nenhum iate, helicóptero, casa na encosta do Pacífico, mansão, corvette, ou diamante, poderá te salvar. Esses ficam aqui, na posse passageira de outro "dono".
A angústia vem do saber que não se pode mais ter com aquele ser que morreu. Quem aproveitou dele, bem, quem não aproveitou, não terá mais oportunidade, perdeu. 
Toda partida, despedida, traz dor para quem fica. Quem vai, se envolverá em outras viagens, paisagens. E quem fica, foi abandonado. Fica lá no cais do porto, abanando a mão para quem foi, até perder o sujeito de vista e nunca mais vê-lo.
É a certeza pessoal da morte que nos faz humanos, e traz a consciência da vida como algo que deve ser levado a sério. 
É a morte que humaniza, porque nos faz mortais, e torna a vida única e irrepetível. A morte é absoluta, pessoal e intransferível. 
É um mistério a ser decifrado com uma experiência única. Além de Jesus, ninguém voltou da morte para contar como foi. Ou não estou bem informada?! 
E me parece tão incoerente empenharmos a vida e nossas tarefas cotidianas como forma de resistência à morte, que sabemos ser inevitável. 
É, pobres mortais(!), a morte não é apenas necessária, é o padrão rígido do necessário na nossa existência.  
A morte não deveria ser encarada como uma tristeza. Nós, ocidentais, a encaramos assim, por sermos pessoas de pouca fé. Os asiáticos, orientais, pensam diferente. Ainda descubro o que tem eles de tão diferente, e não me refiro somente ao contexto histórico e geográfico, falo de genética mesmo.
Eu, sobre a minha morte vos digo, não quero choros, nem velas. E aliás, podem me jogar num buraco qualquer. Um corpo sem vida não precisa de companhia, cuidados, roupas lindas, ou ser embrulhado em caixas de valor.
A morte está por ae, por aqui, solta, de olho em mim, o tempo todo, do meu lado direito, esquerdo, sobre meus ombros, à espreita. 
E eu, preparada para olhá-la de frente. 
Eu partirei feliz. Estou pronta pra morrer a qualquer momento.
A vida é um milagre. E morrer pra mim é lucro. 
Não tenho medo de envelhecer. Meu medo é não me sentir bastantemente viva. Do resto, eu já sei o que tenho que saber, e sei pra onde vou. 

E vocês, pessoas que clamam tanto a Deus, ao se deparar com a morte, sabem?

quarta-feira, 1 de junho de 2011

O CU PADA


Todo dia é demais pra mim
Não sei se chove ou se faz frio
Ontem jantei, hoje nem almocei
A cama muito me chama e pouco me abraça
Não devia ser assim
Quando pintarei as unhas de azul e extrairei os cravos do nariz
Os pássaros confundem meu cabelo com o ninho
Já não uso antisséptico bucal, quem dera uma corrida matinal
Céline abandonado na cabeceira
Acompanhado dos jornais de terça-feira
A vida passa, eu vou junto, e nem vi
O relógio não me permite ver os amigos, nem me preocupar com algum infeliz
1440 minutos correm depressa e nem me dão fôlego
Pra poder beijar direito o moço e fazer planos casadoiros
Quando o sol nascer de novo, terei acabado de dormir
Hoje já é depois de amanhã, começa o tudo de novo, é o começo do fim
Não vou me acostumar a dosinhas de prozac em taça de cristal
Óh deuses isso é tão sério, será que devia levar a sério?!
Ahh...não vou pensar nisso agora
Porque se penso logo insisto ou desisto
Não quero suores no meu robe de seda
Acabo rindo disso tudo, nem que seja no último minuto
Estou aqui há horas pra colher o fruto do que vivi (ou não vivi)
E a minha parte eu quero em ócio, espumante, e cama redonda com vista pro mar.

(de preferência no tempo das carnes ainda duras - ou macias)

quarta-feira, 23 de março de 2011

água benta



Existe uma saudade maldita que me acompanha, espia e aperta minha carne.

E crises de abstinência solidificam sua presença em miragens lúbricas no cinema da minha mente.

A boca sequiosa à espreita de uma gota dos seus líquidos, e nada mais há que mate essa sede e acalente meu instinto, do que a força da sua língua alterando a minha percepção.

Minhas pupilas dilatam e crescem buscando te alcançar a qualquer distância.

Meu couro se arrepia e transforma meus pêlos em espinhos selvagens que esperam ser domesticados e amaciados por seus dedos viris.

O corpo revolto pela vontade de ti junto a ele, a pulsação alcança velocidade de avião, e palpita urgente, implacável e revelador.

E tudo que há em mim acusa, me expõe, e não há disfarce que disfarce meus sentidos exaltados e meu cheiro exalado.

A minha roupa, os lençóis, os travesseiros e coxas se encharcam enquanto esperam sentir seu peso sobre as minha ancas.

A temperatura queima tudo em volta, e tenho febre de causas e efeitos.
Febre terçã. De ansiar, esperar, ter, tocar, imaginar, sentir, vibrar.

Surto. Pertubação. Agitação. Desordem.
Colapso no vácuo dos meus braços e no vão das minhas pernas sem seu preenchimento.

Não há água suficiente no mundo que abarque a liquidez da sua rigidez convicta e insolente.

E deságuo meu sal, meu suor e mel pra dissipar sua ausência que cresce em proporções ameaçadoras junto ao meu anseio imodesto, petulante e atrevido.

Abro os olhos pra não ver, mas sua ubiquidade me assalta e rouba todos os meus sonhos, deixando em troca seu gosto cravado no céu da minha boca, entorpecendo as papilas com deleite, doçura, dureza e rudez.

Então fecho os olhos, e sua ausência material reflete toda a minha fragilidade, todas as minhas águas, todo o meu mergulho na sua nostalgia, toda a fantasia da minha avidez que é crua, é nua e é sua.

E já não quero mais saber do que se passa lá fora, porque tudo o que me interessa só pode advir de dentro de nós.

Sinais de antropofagia se apropriam de mim. Canibalismo. Te comer entrelinhas e saciar a fome das minhas entranhas. Tateio meu corpo doente na esperança de que venhas logo e me salve.

Corpo açoitado, desejo santificado, oro e suplico, venha, abençõe-me, e jorre sobre mim sua água benta. Porque persevero no prazer minha fé maometana.

E porque ainda és meu óleo e minha benção, minha cura, minha unção, meu prazer e meu pão.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

ser perfeito é o maior defeito




Você que tem medo do mar
se afoga sempre em terra firme
usa as palavras como ardil
e ao delas se afastar, um passo à frente, se contradiz
incompetente, não sabe agir
devia nutrir o amor – de preferência o próprio – ou impróprio
prezar a carne biodegradável
a cada instante mais distante da eternaidade
escondida atrás de panos chic, cabelo arranjado, peeling de cristal, unhas pintadas
e na cara, o riso amarelo, em dentes brancos
fantasia não maquia o que precisa
onde está a ombridade em honrar a vida que lhe foi permitida
perde tempo, conta estrelas, não topa montanha russa, fala com os mortos,
não beija o sapo por medo de virar rã
dá a volta ao mundo, rodeia o eixo, e aporta no mesmo porto
pensa que sabe que vê diferente, e conta sempre a mesma história
mansa, pobre, vítima, desgraçada, desventurada, deplorável, lastimável
pede esmolas, atenção, seguidores, bota placa
suplica sutilmente por companhia
rejeitada em eterno encalço de paixões
bestialmente concebidas em berços sofistas
aviso: nesse mundo só há viralatas
ser perfeito é o maior defeito
não existe príncipe pra você
apague o pânico desse teatro sem chamas
sua casta não será assestada
ei, chega perto: - Teu disfarce te revela.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Dory


Não sei porque e como acontece, mas, do nada, sem previsão divina, da mãe Dinah, dos babalorixás, ou mesmo qualquer intuição ou expectativa humana, o caminho por onde andas some, o imprevisto invade a cena, o mato toma conta da trilha, não há rumo, não há leme, não há luz de fundo, sequer túnel, não há sonho, e nem mesmo qualquer droguinha suficientemente boa e capaz de te colocar em outra viagem.
Sei que um triste dia você abre seus lindos olhos e se vê ali deitado, sem motivo pra levantar o corpo e tomar a posição vertical. Sem rédeas pra domar, facas pra brigar, um corpo pra amar, nem metro e meio pra ocupar.
Você – lotado de certezas fatalísticas na cabeça - pensa de cara que o mundo conspira contra você, que o vento só lhe traz poeira e besouros, e a água que bebe nunca é insípida e inodora. Passa a imaginar todos os seus nobres irmãos despertando às 7 badaladas e oito sonecas depois, indo para os seus dignos trabalhos, dirigindo suas cadeiras de rodas 1.0, 1.4, 1.6, 2.0 (boa, Nagoa), instalados nas suas prisões refrigeradas de cores neutras, ganhando seus míseros trocados, ou absurdas somas, construindo e incrementando seus lifestyles de novela, porfiando romances "ideais" e - ou "rodriguianos", e você ali, inerte, o protótipo de uma ameba, sem previsões ou provisões.
E logo você, um ateu convicto, acaba pensando Nele: “Ai god, se você existe mesmo, por que esqueceu desse seu súdito filho, ser desgraçado, degradado, desgarrado, e que ainda insiste em ser bem feitor.”
Euzinha nessa circunstância - que belo dia de mais um dia de férias espontâneas e ócio abençoado, mochila leve, nenhum cartão pra bater, ninguém pra fazer sala. Aproveito o sol. Queimar a pele do meu torneado corpinho, e já que aqui não há mar (eu prefiro o sal), me banhar em alguma cachoeira próxima. Eu sei, minha alta auto estima é quase única e sempre me levou a ter a certeza que amanhã nada me faltará. O hoje me basta, e hoje eu to abastada (graças a eu mesma).
Bom, e o barquinho ta lá, lindo e faceiro, meigo, humilde e modesto na sua insignificância frente a imensidão das águas.
E você!? Você tá fora honey! Sua canoa furou, os lemes afundaram e você, na sua estupidez galopante, continua remando contra a maré e engolindo água salobra.
Não adianta chorar ou blasfemar. Você nesse barco vai afundar. E pior, te falta visão suficiente pra sacar que ta na hora de nadar.
Se o que corre nessas veias é sangue, e não água com açúcar, e mesmo não sendo um puro sangue - se ele ainda é quente, o pulso ainda pulsa, e se esses olhos conseguem ver algo além desse nariz empinado, esse umbigo mal curado e essa cara de quem goza mal pra caralho...fecha logo essa boca maldita e pára de se alimentar de moscas, cessa as reclamações e as mentiras inventadas que não sabe sustentar, abandona de vez as desculpas inconsumíveis, e não peça piedade a quem você nem acredita existir.
Tá sem rumo, sem destino, sem motivo, sem cor, sem tom, sem tesão, sem tostão, seu paladar já não tem função, e não consegue sentir nada a não ser o gosto azedo dessa sua amargura intrínseca:

“Continue a nadar, continue a nadar, continue a nadar...”.

Ah! Nada melhor que as mensagens subliminares das películas infantis pra animar.
Melhor que qualquer livrim fastidioso chopriano, oshiano, coelhano, e doutros bilongos da estirpe dos xatólogos.

E a você Loro, obrigada pelas setenta vezes que compartilhou comigo sua doce e vibrante companhia, no afã de me apresentar e ficarmos a admirar a Dory.
Ai loviu pra xuxu!

domingo, 14 de novembro de 2010

Bom dia resignados!

Você tenta ser feliz, não vê que é deprimente
Seu filho sem escola, seu velho tá sem dente
Você tenta ser contente, não vê que é revoltante
Você tá sem emprego e sua filha tá gestante
Você se faz de surdo, não vê que é absurdo
Você que é inocente foi preso em flagrante
É tudo flagrante.
...

Escola, esmola, favela, cadeia, sem terra, enterra, sem renda, se renda.
Não, não.
...

Muda, que quando a gente muda o mundo muda com a gente
A gente muda o mundo na mudança da mente
E quando a mente muda a gente anda pra frente
E quando a gente manda ninguém manda na gente.
Até quando você vai levar porrada?

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

tô fora


queria eu dizer tudo que me vem à língua, o que me atiça os instintos libertinos e faz esmorecer até os que se dizem trash, punks, anarquistas. queria eu explanar sobre as vicissitudes da vida, os mistérios do amor, as paixões fast food, o dilema dos bons, a bondade dos maus, a virtude dos aceitos e politicamente corretos, mas não posso, não me vem, não sou nada, incapaz de tornar inteligível qualquer coisa que faça referência a emoção, sentimento e desejo de alguém, eu não sei porra nenhuma dessa vida, só sei do que não gosto, nem do que gosto eu sei de verdade, a vida nos trai toda hora, e nos faz percorrer por trilhos estrategicamente dispostos, que vão nos levar a um caminho previsível, óbvio, e muitas vezes sem volta. penso em gentes felizes com suas famílias felizes e cristãs, bem estruturadas, numa casa projetada, sorrisos colgate nas suas bocas com dentes perfeitos e brancos. penso em mulheres elegantes, bem sucedidas em seus ricos empregos com seus vestidos sexy e tailleurs impecáveis, sapatos lolla, cremes mary kay, personal no fim do dia e uma serviçal que lhe trata como filha. penso nas crianças cor de romã e seus brinquedos modernos, tomando sol com suas babás de vestes brancas, a esperar mamãe e papai. penso nos jovens adolescentes, aprendizes de uma vida tranquila e já traçada desde que nasceram, aulas de inglês, espanhol, mandarin, ballet e karatê, com suas mochilas high tech, seus tênis style, ipad, e internet banda larga. penso nos homens, pais e amantes perfeitos, workaholics, caçando o dia inteiro pra oferecer o melhor das abundâncias para a prole, e assim, serem eleitos pela família, amigos e vizinhos, o melhor provedor-comandante.
esse quadro não me enquadra. eu não caibo nessa tela. eu, ser anormal? qual seu foco-objetivo de vida, filha? tudo parece tão perfeito, limpo e rico! invadem-me os paradoxos! se isso for o melhor dos futuros a ser conquistado, para a acomodação derradeira da nação patriarcal instituída, deixarei a desejar. não cumprirei o desafio. essa tinta ainda não me retrata. não me apetece. a vida é breve, penso eu, e não há que ser levada tão a sério. afinal, dessa aventura alucinante ninguém sairá vivo. penso em me arriscar. arriscar a vida em ser livre. nos meus planos não habita esse comercial de margarina. nem ficar preso a ele até o dia do meu juízo,(a)final, eu escolhi ser livre.
tô fora. vou me jogar na vida. e seja o que der, doer e vier.
bye!