segunda-feira, 21 de abril de 2014

O BARCO




...E SE FURTEI SUA PAZ, PERDÃO, FOI EQUÍVOCO CONSENTIDO, RETOME-A,

VÁ EM PAZ...



ESSE AMOR ME CONSUMIU

ME EXAURIU

PRESTO TENÊNCIA

AGRADEÇO PELA DOR

E AO CAUSADOR


VALHAM-ME ELES

FOI DEMAIS


PERDIDA EM LABIRINTOS

TÁTICAS NUNCA IMAGINADAS

VIVI, ARDI, GOZEI, SOFRI,

E SEM ARDIS,

SENTI



TUDO UM DIA HÁ DE TER FIM

SEM INTENCIONAR TE CONVENCER DO CONTRÁRIO

TODO AMOR SERÁ PERECÍVEL ENFIM (?)



E SE O ADEUS FOI POR ENGANO

ACEITE ENTÃO, SEM CULPA OU PERDÃO



COMO UMA BOA ARGONAUTA QUE SOU

PROSSIGO NAVEGANDO

DESBRAVANDO, REMANDO


E SE ÀQUELE PORTO UM DIA VOLTAR

LÁ NÃO HÁ DE ME ENCONTRAR



SE FOI UM VÍCIO

CONFESSEI, ASSUMI

ASPIREI FORTE

ATÉ SENTIR O CHEIRO DE MORTE

DESVANECER, CAIR, SUCUMBIR



E NÃO DESISTI AO MENOS

EU SEMPRE VOU ATÉ O FIM



E SEGUIREI A QUEIMAR NO FOGO E ARDER

A ENGOLIR O VAZIO GÉLIDO

DOS RESISTENTES TEMENTES

QUE JAMAIS EXPERIMENTAM O MORRER


segunda-feira, 14 de abril de 2014

bandeirinhas pra boi engolir

Quanto mais leio as várias e diversas mulheres, de todas as categorias, rebanhos e bandeiras (diga-se, aliás, mais dando bandeira que levantando), dissertando, narrando, e falando do gênero da sua espécie, sobre conquistas, lutas, anseios, pré-ocupações, pré-conceitos, insatisfações, e todos os seus questionamentos, respaldados na influência do pensamento feminista de antanhos, diante a geração contemporânea, mais gosto das pós-feministas.
Gente, é preciso entender que essa prosinha pra boi dormir tá mais que ultrapassada! Putz, mudemos o discurso, a linha do pensamento, senão, mulheres do meu coração, ninguém sai do lugar, e daqui 200 anos, se o planeta chegar lá, nossas tataranetas estarão repetindo essas mesmices prescindíveis sobre as roupinhas de menina boa e de piriguete/vadia, os corpinhos modelos e os escusáveis, as lutinhas sãs e as deploráveis, os chefinhos que te reconhecem e os que cagam em você ou te assediam, quem lava a louça, cuida da casa, zela da cria, dirige o carro ou sustenta o hospício familiar. Não há que se ter mais blá blá blá sobre a luta dos 'direitos femininos' em face do hipotético domínio global predominantemente do macho.
Fêmeas, os direitos estão aí, existem, usemos!
Direito ao voto com idêntico peso, ao estudo, a ler e escrever, a lavorar fora de casa, salários iguais, e até maiores, a abortar – em alguns países, a trepar sem engravidar, licença maternidade (afinal, só nós mesmas podemos e sabemos como é parir), a usar calças compridas, dirigir, lei do assédio, lei maria da penha... Somos todos pessoas, com idêntica carne e sangue, é isso que tem que ser considerado. E outra, não há supremacia de xx ou xy, o que tem que haver é o respeito. E a supremacia é de quem está com a razão, sem disputinhas de sexo ou alter ego.
O que precisamos defender é o humano exercendo o direito à supremacia da sua vontade, de fazer o que bem entender, desde que não machuque, engane ou sobrepuje ninguém.
O ser humano, de todo gênero, até no gênero neutro (?) – novidade que li estes dias - são tão iguais dentro da sua desigualdade de cromossomos, que até se confundem. A desigualdade de gêneros deve ser considerada apenas na medida de suas diferenças fisiológicas/hormonais.
As diferenças, igualdades e barbaridades estão pra todos e em todos. Pois, neste mundo habitam, mulheres e homens com e sem pretensões, mulheres e homens com e sem ambições materiais, intelectuais ou espirituais. Há mulheres e homens que gostam e assistem novela. Há mulheres e homens que casam porque querem cumprir os reclames da sociedade, e outros querem casar na igreja porque acham lindo. Há mulheres e homens que querem casar com o dinheiro do outro. Há mulheres e homens que mantêm o casamento fracassado e de fachada para não dividir o patrimônio. Há mulheres e homens incautos, há os que votam em branco e depois reclamam do governo. Há mulheres e homens que se omitem, que mentem, que matam, que não pagam impostos. Há mulheres e homens vítimas e bandidos, mulheres e homens que apanham, que são submetidos, que submetem, que se vendem, que pagam pelo que fizeram, e mulheres e homens que permanecem impunes. Há mulheres e homens que fazem programa, que dão o cu, que dançam em nightclubs. Mulheres e homens que foram traficados, escravizados pelo sexo, pelo dinheiro e pela aparência. E sinceramente, minha gente, essa bandeirinha do direito de não ser estuprado, me parece estúpida de tão óbvia. Estupros acontecem porque existem maníacos, doentes, estupradores, e não porque a vítima está usando mini-saia, decote ou burca. Seja lá qual vestimenta usar, se passar na frente do vilão na ocasião propícia, será estuprada, independente da modinha que a enfeite.

 *O dia que um ignóbil ser ousou passar a mão em mim dentro do ônibus, para sua infelicidade,   eu não gostei, resultado, desceu do ônibus, no meio da noite, na estrada, e na porrada...

Eu, no meu parco entendimento anti-gênero, acho bacana o texto feminista inserido no contexto do comportamento de uma época em que havia abissais diferenças, ou seja, enquanto marco histórico de posicionamento social. Das atrocidades primitivas à coisificação da mulher: luto e morro contra as barbáries de todo gênero e grau por amor à liberdade do ser humano, e não ao cromossomo.
Mas o grande x da questão é que as mulheres ainda estão naquele discursinho meia boca ou mesmo pós acadêmico, ao invés de lapidar e aprimorar a arte de tornar os direitos conquistados efetivos, reais, na prática. Porque afinal de contas, cada um é o que é, e o que quer ser, e só dá as ordens no barraco, quem ‘fizer por onde’, e, ou, será o humilhado e subjugado, quem assim se deixou ser - “Quando a gente manda ninguém manda na gente”. E se ‘escolheram’ ser hipócritas, levianos, infiéis, medíocres, submissos, autoritários, medrosos, indignos, incompetentes, rasos, infames, estúpidos, o são tanto no masculino como no feminino.
Mas, por óbvio e evidente, há seres, humanos, que desconhecem a evolução do mundo e a história, e acabam contribuindo para a confusão das cabecinhas que só engolem o que lhes é dado mastigado, e por isso, infelizmente, são cerebrozinhos menos ilustrados. E aí que as mocinhas lindas, malhadas e desavisadas, e rapazes robustos, machões e ignorantes, acabam por gerar cenas primitivas e grotescas em universidades, ruas, bares e lugares afins, e os senhores ignóbeis e endinheirados, e as madames refinadas e afiadas, abatam-se em tribunais. E se as pessoas desse planeta, que convivem nessa sociedade inadequada, não começarem a se entender e buscar soluções para seus conflitos, estarão para sempre enlameadas nessa merda decadente. 
Então, será o nosso grande desafio (?), conviver com posicionamentos retrógrados sem a capacidade de adequá-los, o máximo possível, ao conhecimento do ser humano moderno.

quinta-feira, 27 de março de 2014

Verena decide morrer


A morte nos causa uma tristeza egoísta, porque somos deixados, ficamos aqui nesta vida mundana, irreal, mentirosa, e o outro vai embora. 
É o sentimento de perda que angustia. Ninguém quer perder. Como se tivéssemos propriedade sobre alguma coisa. Como se fôssemos donos de algo ou alguém. 
E junto com a morte vem a ideia inconsciente da impotência humana. E ainda, a preeminência dos vermes. Tão abominados, enojados, e que com sua pequenez e insignificância irão comer seu corpinho tão altivo, seu cerebrozinho tão inteligente, exceto seu siliconizinho, que vai ficar lá enlameado. 
E nenhum iate, helicóptero, casa na encosta do Pacífico, mansão, corvette, ou diamante, poderá te salvar. Esses ficam aqui, na posse passageira de outro "dono".
A angústia vem do saber que não se pode mais ter com aquele ser que morreu. Quem aproveitou dele, bem, quem não aproveitou, não terá mais oportunidade, perdeu. 
Toda partida, despedida, traz dor para quem fica. Quem vai, se envolverá em outras viagens, paisagens. E quem fica, foi abandonado. Fica lá no cais do porto, abanando a mão para quem foi, até perder o sujeito de vista e nunca mais vê-lo.
É a certeza pessoal da morte que nos faz humanos, e traz a consciência da vida como algo que deve ser levado a sério. 
É a morte que humaniza, porque nos faz mortais, e torna a vida única e irrepetível. A morte é absoluta, pessoal e intransferível. 
É um mistério a ser decifrado com uma experiência única. Além de Jesus, ninguém voltou da morte para contar como foi. Ou não estou bem informada?! 
E me parece tão incoerente empenharmos a vida e nossas tarefas cotidianas como forma de resistência à morte, que sabemos ser inevitável. 
É, pobres mortais(!), a morte não é apenas necessária, é o padrão rígido do necessário na nossa existência.  
A morte não deveria ser encarada como uma tristeza. Nós, ocidentais, a encaramos assim, por sermos pessoas de pouca fé. Os asiáticos, orientais, pensam diferente. Ainda descubro o que tem eles de tão diferente, e não me refiro somente ao contexto histórico e geográfico, falo de genética mesmo.
Eu, sobre a minha morte vos digo, não quero choros, nem velas. E aliás, podem me jogar num buraco qualquer. Um corpo sem vida não precisa de companhia, cuidados, roupas lindas, ou ser embrulhado em caixas de valor.
A morte está por ae, por aqui, solta, de olho em mim, o tempo todo, do meu lado direito, esquerdo, sobre meus ombros, à espreita. 
E eu, preparada para olhá-la de frente. 
Eu partirei feliz. Estou pronta pra morrer a qualquer momento.
A vida é um milagre. E morrer pra mim é lucro. 
Não tenho medo de envelhecer. Meu medo é não me sentir bastantemente viva. Do resto, eu já sei o que tenho que saber, e sei pra onde vou. 

E vocês, pessoas que clamam tanto a Deus, ao se deparar com a morte, sabem?

quarta-feira, 1 de junho de 2011

O CU PADA


Todo dia é demais pra mim
Não sei se chove ou se faz frio
Ontem jantei, hoje nem almocei
A cama muito me chama e pouco me abraça
Não devia ser assim
Quando pintarei as unhas de azul e extrairei os cravos do nariz
Os pássaros confundem meu cabelo com o ninho
Já não uso antisséptico bucal, quem dera uma corrida matinal
Céline abandonado na cabeceira
Acompanhado dos jornais de terça-feira
A vida passa, eu vou junto, e nem vi
O relógio não me permite ver os amigos, nem me preocupar com algum infeliz
1440 minutos correm depressa e nem me dão fôlego
Pra poder beijar direito o moço e fazer planos casadoiros
Quando o sol nascer de novo, terei acabado de dormir
Hoje já é depois de amanhã, começa o tudo de novo, é o começo do fim
Não vou me acostumar a dosinhas de prozac em taça de cristal
Óh deuses isso é tão sério, será que devia levar a sério?!
Ahh...não vou pensar nisso agora
Porque se penso logo insisto ou desisto
Não quero suores no meu robe de seda
Acabo rindo disso tudo, nem que seja no último minuto
Estou aqui há horas pra colher o fruto do que vivi (ou não vivi)
E a minha parte eu quero em ócio, espumante, e cama redonda com vista pro mar.

(de preferência no tempo das carnes ainda duras - ou macias)

quarta-feira, 23 de março de 2011

água benta



Existe uma saudade maldita que me acompanha, espia e aperta minha carne.

E crises de abstinência solidificam sua presença em miragens lúbricas no cinema da minha mente.

A boca sequiosa à espreita de uma gota dos seus líquidos, e nada mais há que mate essa sede e acalente meu instinto, do que a força da sua língua alterando a minha percepção.

Minhas pupilas dilatam e crescem buscando te alcançar a qualquer distância.

Meu couro se arrepia e transforma meus pêlos em espinhos selvagens que esperam ser domesticados e amaciados por seus dedos viris.

O corpo revolto pela vontade de ti junto a ele, a pulsação alcança velocidade de avião, e palpita urgente, implacável e revelador.

E tudo que há em mim acusa, me expõe, e não há disfarce que disfarce meus sentidos exaltados e meu cheiro exalado.

A minha roupa, os lençóis, os travesseiros e coxas se encharcam enquanto esperam sentir seu peso sobre as minha ancas.

A temperatura queima tudo em volta, e tenho febre de causas e efeitos.
Febre terçã. De ansiar, esperar, ter, tocar, imaginar, sentir, vibrar.

Surto. Pertubação. Agitação. Desordem.
Colapso no vácuo dos meus braços e no vão das minhas pernas sem seu preenchimento.

Não há água suficiente no mundo que abarque a liquidez da sua rigidez convicta e insolente.

E deságuo meu sal, meu suor e mel pra dissipar sua ausência que cresce em proporções ameaçadoras junto ao meu anseio imodesto, petulante e atrevido.

Abro os olhos pra não ver, mas sua ubiquidade me assalta e rouba todos os meus sonhos, deixando em troca seu gosto cravado no céu da minha boca, entorpecendo as papilas com deleite, doçura, dureza e rudez.

Então fecho os olhos, e sua ausência material reflete toda a minha fragilidade, todas as minhas águas, todo o meu mergulho na sua nostalgia, toda a fantasia da minha avidez que é crua, é nua e é sua.

E já não quero mais saber do que se passa lá fora, porque tudo o que me interessa só pode advir de dentro de nós.

Sinais de antropofagia se apropriam de mim. Canibalismo. Te comer entrelinhas e saciar a fome das minhas entranhas. Tateio meu corpo doente na esperança de que venhas logo e me salve.

Corpo açoitado, desejo santificado, oro e suplico, venha, abençõe-me, e jorre sobre mim sua água benta. Porque persevero no prazer minha fé maometana.

E porque ainda és meu óleo e minha benção, minha cura, minha unção, meu prazer e meu pão.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

ser perfeito é o maior defeito




Você que tem medo do mar
se afoga sempre em terra firme
usa as palavras como ardil
e ao delas se afastar, um passo à frente, se contradiz
incompetente, não sabe agir
devia nutrir o amor – de preferência o próprio – ou impróprio
prezar a carne biodegradável
a cada instante mais distante da eternaidade
escondida atrás de panos chic, cabelo arranjado, peeling de cristal, unhas pintadas
e na cara, o riso amarelo, em dentes brancos
fantasia não maquia o que precisa
onde está a ombridade em honrar a vida que lhe foi permitida
perde tempo, conta estrelas, não topa montanha russa, fala com os mortos,
não beija o sapo por medo de virar rã
dá a volta ao mundo, rodeia o eixo, e aporta no mesmo porto
pensa que sabe que vê diferente, e conta sempre a mesma história
mansa, pobre, vítima, desgraçada, desventurada, deplorável, lastimável
pede esmolas, atenção, seguidores, bota placa
suplica sutilmente por companhia
rejeitada em eterno encalço de paixões
bestialmente concebidas em berços sofistas
aviso: nesse mundo só há viralatas
ser perfeito é o maior defeito
não existe príncipe pra você
apague o pânico desse teatro sem chamas
sua casta não será assestada
ei, chega perto: - Teu disfarce te revela.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Dory


Não sei porque e como acontece, mas, do nada, sem previsão divina, da mãe Dinah, dos babalorixás, ou mesmo qualquer intuição ou expectativa humana, o caminho por onde andas some, o imprevisto invade a cena, o mato toma conta da trilha, não há rumo, não há leme, não há luz de fundo, sequer túnel, não há sonho, e nem mesmo qualquer droguinha suficientemente boa e capaz de te colocar em outra viagem.
Sei que um triste dia você abre seus lindos olhos e se vê ali deitado, sem motivo pra levantar o corpo e tomar a posição vertical. Sem rédeas pra domar, facas pra brigar, um corpo pra amar, nem metro e meio pra ocupar.
Você – lotado de certezas fatalísticas na cabeça - pensa de cara que o mundo conspira contra você, que o vento só lhe traz poeira e besouros, e a água que bebe nunca é insípida e inodora. Passa a imaginar todos os seus nobres irmãos despertando às 7 badaladas e oito sonecas depois, indo para os seus dignos trabalhos, dirigindo suas cadeiras de rodas 1.0, 1.4, 1.6, 2.0 (boa, Nagoa), instalados nas suas prisões refrigeradas de cores neutras, ganhando seus míseros trocados, ou absurdas somas, construindo e incrementando seus lifestyles de novela, porfiando romances "ideais" e - ou "rodriguianos", e você ali, inerte, o protótipo de uma ameba, sem previsões ou provisões.
E logo você, um ateu convicto, acaba pensando Nele: “Ai god, se você existe mesmo, por que esqueceu desse seu súdito filho, ser desgraçado, degradado, desgarrado, e que ainda insiste em ser bem feitor.”
Euzinha nessa circunstância - que belo dia de mais um dia de férias espontâneas e ócio abençoado, mochila leve, nenhum cartão pra bater, ninguém pra fazer sala. Aproveito o sol. Queimar a pele do meu torneado corpinho, e já que aqui não há mar (eu prefiro o sal), me banhar em alguma cachoeira próxima. Eu sei, minha alta auto estima é quase única e sempre me levou a ter a certeza que amanhã nada me faltará. O hoje me basta, e hoje eu to abastada (graças a eu mesma).
Bom, e o barquinho ta lá, lindo e faceiro, meigo, humilde e modesto na sua insignificância frente a imensidão das águas.
E você!? Você tá fora honey! Sua canoa furou, os lemes afundaram e você, na sua estupidez galopante, continua remando contra a maré e engolindo água salobra.
Não adianta chorar ou blasfemar. Você nesse barco vai afundar. E pior, te falta visão suficiente pra sacar que ta na hora de nadar.
Se o que corre nessas veias é sangue, e não água com açúcar, e mesmo não sendo um puro sangue - se ele ainda é quente, o pulso ainda pulsa, e se esses olhos conseguem ver algo além desse nariz empinado, esse umbigo mal curado e essa cara de quem goza mal pra caralho...fecha logo essa boca maldita e pára de se alimentar de moscas, cessa as reclamações e as mentiras inventadas que não sabe sustentar, abandona de vez as desculpas inconsumíveis, e não peça piedade a quem você nem acredita existir.
Tá sem rumo, sem destino, sem motivo, sem cor, sem tom, sem tesão, sem tostão, seu paladar já não tem função, e não consegue sentir nada a não ser o gosto azedo dessa sua amargura intrínseca:

“Continue a nadar, continue a nadar, continue a nadar...”.

Ah! Nada melhor que as mensagens subliminares das películas infantis pra animar.
Melhor que qualquer livrim fastidioso chopriano, oshiano, coelhano, e doutros bilongos da estirpe dos xatólogos.

E a você Loro, obrigada pelas setenta vezes que compartilhou comigo sua doce e vibrante companhia, no afã de me apresentar e ficarmos a admirar a Dory.
Ai loviu pra xuxu!

domingo, 14 de novembro de 2010

Bom dia resignados!

Você tenta ser feliz, não vê que é deprimente
Seu filho sem escola, seu velho tá sem dente
Você tenta ser contente, não vê que é revoltante
Você tá sem emprego e sua filha tá gestante
Você se faz de surdo, não vê que é absurdo
Você que é inocente foi preso em flagrante
É tudo flagrante.
...

Escola, esmola, favela, cadeia, sem terra, enterra, sem renda, se renda.
Não, não.
...

Muda, que quando a gente muda o mundo muda com a gente
A gente muda o mundo na mudança da mente
E quando a mente muda a gente anda pra frente
E quando a gente manda ninguém manda na gente.
Até quando você vai levar porrada?

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

tô fora


queria eu dizer tudo que me vem à língua, o que me atiça os instintos libertinos e faz esmorecer até os que se dizem trash, punks, anarquistas. queria eu explanar sobre as vicissitudes da vida, os mistérios do amor, as paixões fast food, o dilema dos bons, a bondade dos maus, a virtude dos aceitos e politicamente corretos, mas não posso, não me vem, não sou nada, incapaz de tornar inteligível qualquer coisa que faça referência a emoção, sentimento e desejo de alguém, eu não sei porra nenhuma dessa vida, só sei do que não gosto, nem do que gosto eu sei de verdade, a vida nos trai toda hora, e nos faz percorrer por trilhos estrategicamente dispostos, que vão nos levar a um caminho previsível, óbvio, e muitas vezes sem volta. penso em gentes felizes com suas famílias felizes e cristãs, bem estruturadas, numa casa projetada, sorrisos colgate nas suas bocas com dentes perfeitos e brancos. penso em mulheres elegantes, bem sucedidas em seus ricos empregos com seus vestidos sexy e tailleurs impecáveis, sapatos lolla, cremes mary kay, personal no fim do dia e uma serviçal que lhe trata como filha. penso nas crianças cor de romã e seus brinquedos modernos, tomando sol com suas babás de vestes brancas, a esperar mamãe e papai. penso nos jovens adolescentes, aprendizes de uma vida tranquila e já traçada desde que nasceram, aulas de inglês, espanhol, mandarin, ballet e karatê, com suas mochilas high tech, seus tênis style, ipad, e internet banda larga. penso nos homens, pais e amantes perfeitos, workaholics, caçando o dia inteiro pra oferecer o melhor das abundâncias para a prole, e assim, serem eleitos pela família, amigos e vizinhos, o melhor provedor-comandante.
esse quadro não me enquadra. eu não caibo nessa tela. eu, ser anormal? qual seu foco-objetivo de vida, filha? tudo parece tão perfeito, limpo e rico! invadem-me os paradoxos! se isso for o melhor dos futuros a ser conquistado, para a acomodação derradeira da nação patriarcal instituída, deixarei a desejar. não cumprirei o desafio. essa tinta ainda não me retrata. não me apetece. a vida é breve, penso eu, e não há que ser levada tão a sério. afinal, dessa aventura alucinante ninguém sairá vivo. penso em me arriscar. arriscar a vida em ser livre. nos meus planos não habita esse comercial de margarina. nem ficar preso a ele até o dia do meu juízo,(a)final, eu escolhi ser livre.
tô fora. vou me jogar na vida. e seja o que der, doer e vier.
bye!

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

I have a dream



Já ouviu falar daquele louco que acendeu uma lanterna numa clara manhã, correu para a praça do mercado e pôs-se a gritar incessantemente: "Eu procuro Deus! Eu Procuro Deus!" Como muitos dos que não acreditam em Deus estivessem justamente por ali naquele instante, ele provocou muitas risadas... "Onde está Deus", ele gritava.
"Eu devo dizer-lhe. Nós o matamos - vocês e eu. Todos somos assassinos... Deus está morto. Deus continua morto. E nós o matamos..."
Friedrich Nietzche, Gaia Ciência (1882).

Eu não sei ainda o porquê, mas meu híbrido ser insiste em ficar mascando pensamentos paradoxais, e mais uma vez, sempre vem à tona o que todos adoram proclamar, a esperança. Esperança, que trago com carinho no meu velho baú de quimeras e inspirações perdidas.
Há alguns itens na essência humana que fazem o mundo pior. No meu míope ponto de vista, me parecem mais reles produtos, ou talvez, sequelas da inteligência meia-boca e nada afrodisíaca dos nobres humanos.
Ilusão, somada à esperança, é nitroglicerina pura.
Nós, frágeis seres carentes, necessitamos mesmo dela?!
Humanos dopados e viciados em ilusão até às tampas. Dá pra perdoar?! E quem suporta tanta realidade!?
Ilusão - da vida pós-morte e um paraíso a te esperar todo arrumadinho e administrado por deus; de que quando vestir o paletó de madeira será perdoado pelos seus erros e maldades cometidos (essa é a melhor); de que um dia a mega-sena sorteará a sua combinação de números; a de que aquele ignóbil amor vingará; que seu carro 1.0 alcança o jaguar; que a gostosa do lado vai te dar mole e algo mais, em troca de nada; que seu patrão reconhecerá seu grande valor; que suas idéias renderão milhões; que mansões se erguerão à sua volta e helicópteros te levarão até Maresias; ilusão de que um dia ficará imerso no ócio profundo e nada te faltará (essa eu tenho).
Bom, diversas idéias e pensamentos em vão, que já renderam inúmeras epopéias homéricas, e outras vagabundas - como esta que você agora perde seu tempo lendo.
Até consigo engolir a esperança, a seco, sozinha, 'no the rock', livre da ilusão.
Muitos acreditaram(?) que o Partido dos Trabalhadores teria como principal objetivo resgatar a ética e a moralidade "como nunca antes na história desse país". E me diz ae, o que você viu? Um monte de putozinhos praticando atos absurdos, fantásticos, com uma promiscuidade nojenta e autofágica entre os três poderes da nobre república das bananas. Escárnio impudente, público e notório, cuspido e escarrado na sua carinha de bom cidadão iludido, como nunca antes na história deste país. Hoje meu partido é um coração partido.
Os donos do mundo, e o resto, tinham a esperança – “I have a dream” - M.L.King, de ver um negro na Casa Branca. Ele chegou lá! Taí: esperança + ilusão!
Quer tomar outra dose de esperança imbuída de ilusão? Haverá paz no Oriente Médio. Quem quiser acreditar em balelas remotíssimas ou em utopia das grandes, fique à vontade! Primeiro passo, reparar o mapa do Oriente Médio e todas as fronteiras anteriores ao domínio franco-britânico, ou seja, o mapa do Império Otomano. Depois sim, fazer com que judeus e palestinos esqueçam de uma vez essa asneira de cada um ter um país próprio, e enfim comemorem o final feliz jogando uma partida de futebol na próxima Copa, com os patriotas no estádio pagando boquete na vuvuzela. Tão fácil como os sulistas esqueceram (?) o sonho da República dos Pampas.
Se a próxima ilusão for a realização do Anarquismo Histórico e Romântico, só posso dizer que é tudo o que euzinha também tenho como esperança, mesmo que não seja pra mim, mas pelo menos para meus tatatatatataranetos (se é que a grande bola azul persistirá até lá). Eu tenho dúvidas, mas, se houverem amanhãs, existe uma possibilidade. E eu estarei lá, como dizia Raul (o último Anarquista): “porque eu continuarei neste homem, nos meus filhos…”
Porém, contudo, para que tal ocorra, precisaremos “enforcar o último governante nas tripas do último bispo”.
Posso listar alguns empecilhos que esbarram na esperança. Produção de armas. De drogas. Paraísos fiscais. Paraísos artificiais. Nacionalismos exacerbados. Tráfico de crianças. Abuso de crianças. Tráfico ilegal de órgãos. Tráfico de influências. Cobiças. Invejas. Documentos confidenciais. Educação no laica. Espionagem. Compra de votos. Ciúmes. Despeitos. Vaidades. Raças. Etnias. Preconceitos. Tradicionalismos doentios. Clonagem. Proibição do uso da camisinha. Curas. Laboratórios. Protecionismos. Copa do Mundo. Olimpíadas. Fashionweek. Nepotismos. Tráfico de mulheres. Exploração de mulheres. Trabalho escravo. Escravidão. Favelas. Excisão do clitóris. Coisas do passado que foram esquecidas. Coisas que nunca esqueceremos. A Velha Europa. As Américas. Astecas. Incas. Maias. Assurinis. Tapirajés. Kaiapós. Bororós. Guaranis. Xingu. Amazônia. Petróleo sobre as águas. Guerras civis. Guerras frias. Guerras religiosas. Guerras por petróleo. As guerras por tudo e por nada. Traições. Enganos. Explorações. Ofensas de bradar aos céus. Fomes disto e daquilo. Miséria. Carências de coisas fundamentais. Consumismo desenfreado. Crianças que querem demais. Crianças que não têm nada. Modas soberanas. Intolerâncias. Absolutismos. Nazismo. Judeus. Judiados. Medos. Ameaças. Chantagens. Faz de conta. Fronteiras. Mentiras descaradas. Hipocrisia. Descrença. Gente que perdeu a vergonha. Invasões. MST. Partidos partidos. De quem são os genes que moram em mim. E deus que não resolve aparecer, ou então enviar o filho ou o gerente. E o que isso importa, não é mesmo?
Será que alguém, dotado de alguma sapiência, racionalidade e lucidez, consegue armazenar ilusões de que o mundo seria, ou será, maravilhoso depois da queda do muro, da paz no Oriente, do negro, do analfabeto e sua sucessora - mulher no poder?
Em um tempo não tão remoto acreditava-se que o Comunismo deixaria o mundo mais justo e igualitário. Enfim! Na seqüência surgiram ditadores comunistas iguais ou muito piores do que os outros.
Lenon, Luther King, sinto informar, mas, o sonho acabou! Só ficaram as rosquinhas de cocô!
“Nossa! Que horror! Você é antipática e nada otimista!”
Ah, por favor, pense, se puder! Você está na vida, mas não está preparado pra ela.
Tente ver pelo lado positivo. A esperança quando acaba é com mansidão, suavidade, nostalgia. Ilusão não, quando acaba provoca trauma na carne sensível. Mas não precisa arrancar os cabelos ou pular no Berabinha. Separe osso de caroço, liberte-se, deixe de vez de ser refém de suas ilusões e crenças bestiais. Esperança pode e deve ser praticada sozinha, sem ser suplantada pela ilusão. Porque essa é definitiva, e tem efeito psicotrópico.
Se os boçais viventes no planeta plástico pudessem dar alguma relevância à lucidez, clareza, perspicácia e racionalidade, poderiam sair da Caverna de Platão. Poderiam! Mas não podem! E sabe por quê? Porque a ilusão não deixa!

domingo, 29 de agosto de 2010

Não foram minhas as suas culpas.




Sei, sei, sei. Não era pra ser assim, baby, mas já foi. Fazer o quê, né? Palavra dita e ato consumado, não tem círculo que consiga fazer a volta pra fazer ser diferente. É como cinzas jogadas ao vento - impossível recolhe-lás. Ahhh...não vá chorar! Quando tudo acabar, estaremos bem, exalando nosso odor despudorado e livre por ae, escancarando os dentes num sorriso sincero, encantando e seduzindo até objetos inanimados. Não peça desculpas. Não cultue remorsos. Não se arrependa. Tem gente que diz que pra tudo - um fim - um destino - um novo começo. Mesmo não sendo adepta destas teorias bestiais paternalistas (Osho e todo seu rebanho), posso tentar engolir essa merda altruísta dos que acham que promovem auto-ajuda.
Infelizes! Não foram minhas as suas culpas! Se esbarraram sem querer querendo, e conversaram horas pra tentar desentender. Cada qual encenou seu papel preferido. A dama gentil e delicada, com suas vestes de pudica pueril na primavera, prolatou palavrinhas quase bem escolhidas para explicar o quanto ela é inocente e solitária, e como acabou caindo ali de para quedas, o qual, não abriu, e ela acabou espatifando suas carnes asseadas no chão eivado de mijo e cerveja (será que quando tira a roupa, deixa a personagem e vira atriz?). Tentativa torpe de convencer a interlocutora (ela não sabia com quem estava falando - não tinha a menor condição de visualizar a dimensão de quem era), de uma tolice tão crassa que a fez querer vomitar no seu sapatinho de cristal. E ele, o macho viril, pragmático, diplomata, pronto a determinar as diretrizes da sua nova rota emocional, afinal, sua teoria de cabeceira é: - Não tá feliz, não tá sorrindo, troca - pega a próxima que está na fila e põe no lugar.
Furacões já arrebataram meu alter ego, fui objeto de estripulia da vaidade alheia, já levei porrada, facada, apanhei na cara, e até conseguiram me derrubar com voadora. Não morri. Não fiquei paraplégica. Quase manquei. Mas minha verve vai além. Sou uma puta de uma egoísta saída de um bordel gótico onde as verdades são ditas por inteiro - questão de sobrevivência, onde um jab de realidade acerta seu narizinho de princesinha direitinha e limpinha, e te derruba da torre do castelo trazendo-a à tona ao mundo que é tocável. Aqui não existe tempo pra papinhos, aventurazinhas e assédios virtuais. Aqui no meu mundo, minha filha, o real suplanta o lúdico, senão você padece degustando nuvens e vendo a banda de punks nus passar e cuspir na sua cara. Aqui os sentimentos são vividos e colocados na atmosfesra, não há lugarzinho quente com cheiro adocicado pra você lamentar rejeições e amores que não sabe viver, isso é pura incompetência, te faz falir. Aqui, chérrie, as oportunidades são disputadas a tapa, e, se você não aproveita, vai ter que vender a janta pra ir ao baile. Sou uma vadia destemida, exagerada e verdadeira, gloriosa por carregar na bagagem um histórico de mulher muito bem amada, idolatrada, salve, salve! O papel de coitadinha amargurada não é pra mim, não sou chegada a colo, nem mágoas. Me viro bem com o que tenho, e minha mala tá carregada de sábias (nem sempre) decisões e opiniões formadas sobre (quase) tudo.
Jurumelas de antanhos. Porcos vis com espinhos tortos. Maledicentes que não sabem amar. Podres imbecis ostentando vida digna em seus dialogozinhos regados à teoria-terapia de quem pensa saber relatar sentimentos que não sabe executar. Carrego enorme pena de gente que veio ao mundo e perdeu a viagem (o Cazuza também). Ignóbeis seres lúdicos, serão sempre escravos de seus sonhos de perfeição, ignorâncias diplomadas e orgulhinhos infantis. Deixo minhas condolências, gente careta e covarde. Talvez, quem sabe, um dia, aprenda, na porrada ou na peixeira, algo que lhe ajude a viver e ver o que é vida de verdade.
Beijo. Desliga.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

vice versa

às vezes me parece que...às vezes tudo desaparece, um dia eu estou, outro não sou, quando me vê se confunde, talvez não seja-me, ou disfarce-me ficou, eu busco não sei o quê, mas quero assim mesmo sem sabê-lo o quê, tudo me interessa e de tudo quero saber, não, conhecer só basta, sem profundidade, intensidade ou penetração, quem disse que a superfìcie não atrai(?)...te faz ficar e até sentir... ninguém quer sentir muito, muito menos saber demais, satisfação é básico momentâneo, importe-se com você mais, deixe os outros para quando eles te precisarem, mania de querer achar o que acha que o outro é, ou o que acha que o outro sente, você se acha (graça), cale-se e meta-se com você, ache-se se puder, e pense menos pra pode sentir um pouco mais, ou vice-versa...não faça as malas antes do adeus, não escove os dentes antes da refeição, não tome água depois do café, não gaste o que não tem, não coma o que não precisa, nunca aprende, sempre se arrepende, rugas aparecem, tolerância enrijece e as carnes amolecem, o pudor se esvaece, a verdade lhe apetece e o humor padece, não pense em final feliz, nem num triste fim, tudo sempre continua, tudo sempre um processo, pra viver não precisa carregar arquivos, armazene as lembranças, as boas - nem sempre, as ruins também te perseguem e quem sabe enriquecem...

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

causas perdidas


é preciso sobreviver à hora da verdade
um dia você se afoga no mar da ilusão
e o mar é maior - não cabe na imaginação
ninguém - nunca - vai abraçá-lo
só depois de esfregar os olhos
tudo fica claro - como areia em dia de sol
a luz te ofusca a princípio
depois enxerga - e usa - a chave da prisão
a brincadeira de ser sério acabou
é hora de brincar de ser livre - no xadrez
se pudesse prever que era inevitável, juro, teria me retirado antes
eu sei, extrapolei o horário, gastei todas as fichas - já vou tarde
se soubesse tudo antes, erraria de novo, de novo, igual
não quero o que nunca me pertenceu
eu desisto de quem desiste
deveria ser simples
ser simples às vezes é complicado
é preciso coragem pra errar - covardes acertam sempre
é preciso dignidade pra saber a hora certa de sair
prazer, meu nome é Cândida - amiga de Cândido - que é amigo de Voltaire
a puro sangue que sobrevive porque também vira latas
conhecida também por dedicar amor às causas perdidas
e pra quem tem coragem, ao seu dispor
pra brincar de ser feliz - enquanto ainda pode imaginar o mar

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Não fui eu


Não fui eu
que sujei seu terno azul;
que usei seu sapatinho de cristal - que se partiu no primeiro passo;
que reguei seus lírios com ácido sulfúrico;
que passeei sobre seu jardim com tanque de guerra;
que rasguei seu testamento - de objetos imprestáveis, valores ínfimos e dívidas impagáveis;
que cuspi no seu prato morno;
que fiz sua barba com a moto serra;
que tatuei esse sorriso na sua cara mal lavada;
que vendei seus olhos no momento do pôr do sol;
que matei o filho do seu Pai;
que coloquei lisérgico no vinho dos seus discípulos;
que salguei sua ceia (santa);
que emprestei o isqueiro pros seus algozes incendiários;
que publiquei seus segredos no jornal da manhã;
que saqueei sua caixa preta;
que guardei seu coração no fundo do baú;
que ceifei sua personalité;
que mordi sua perna na fila de espera;
que trouxe a fome pro seu regime;
que lhe aluguei essa casa sem telhado;
que lhe trouxe doce roubado de criança;
que lhe devolvi o troco errado;
que lhe mandei correr com tesouras;
que gargalhei no dia que você chorou;
que roubei sua solidão;
que enfeitei sua tristeza;
que calei na hora da sua defesa.
Não fui eu que sonhei com o paraíso habitado por seres de elevada moral e lubricidade.
Não fui eu. Não fui. Não eu.
Eu sinto (muito) pouco.
Tudo está como era pra ser e assim não o seria se não fosse por você.
Bem feito está. A culpa pertence a quem a carrega. Eu me sinto leve.
Sua consciência deve estar lá naquele brexó que você adora frequentar. Foi objeto de troca. Resgate-a por preço vil. Aproveite as ofertas e adquira outras bobagens de antanhos e bibelôs inanimados que já serviram de cenário para as suas cenas, e em nada alteram a demanda do mercado contemporâneo.
Colecione suas desculpas prontas e aguarde a ocasião certa para tirá-las do saco.
Siga corretamente o modo de usar e utilize-as com moderação.
Desculpas consumadas quando consumidas.
Sofista de merda.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

SERÁ QUE DEUS CRÊ EM MIM?


Tenho fé porque preciso tanto dela quanto do metal (o vil) para (sobre)viver.
A fé está sempre me colocando em xeque, e eu, compelida a fazer dela o objeto dos meus devaneios. A fé anda sempre misturada e confundida com a esperança, e ao contrário do que prolatam por aí, a esperança é a primeira que deve morrer.
Tento...tento...tento...praticar a caridade. Doar-me um pouco aos outros, e doar algumas pataca$ também. Mas não me engano, doar o que sobra - o resto - não é mérito algum. Estou longe (muito mesmo) de ser algo parecido com a matrona Teresa, ou mesmo ter livre acesso (sem pagar pedágio) ao "reino dos céus".
Dos Sacramentos: fui batizada por uma sociedade hipócrita, mas não me deixei crismar. Meu filho é dito "pagão". Eu, sinceramente, só posso rir de tudo isso. Já quase contraí matrimônio. Não, não é doença. Não criei anticorpos. Mas sarei assim mesmo. Podem descartar a vacina, é dispensável.
Minha trindade são três seres em apenas um: razão, emoção, e, cartão de débito (é, só gasto o que tenho hoje).
Parte de mim é amor, outra (enorme por sinal), desejos, tudo com uma leve pitada de crueldade e lirismo.
Já fui (uma) fiel, hoje me questiono. Comunguei erradamente opiniões, gostos e decisões. Revi, arredei, desconstruí, metamorfoseei, passei de lagarta a borboleta (inúmeras vezes e não necessariamente nesta ordem).
Confessei coisas inconfessáveis (sob o efeito de lisérgicos e/ou influenciada pela veia hormonal), claro, precisava de cúmplices para a tarefa da libertação.
Às vezes me arrependo, de não ter tido colhões suficientes pra fazer o que estava a fim. O que fiz já está feito. Certo ou errado...
Por vezes perdoei - 7x70, por menos vezes recebi perdão.
Aos que me magoaram profundamente, dei extrema-unção - para facilitar suas entradas num outro mundo, bem distante, que não o meu.
Canonizei (que ingenuidade) pessoas, acreditei em falsos profetas, em suas parábolas e em pseudo-milagres, e quando as promessas não se cumpriram, tornei-me nelas descrente. Mas persisto na maldita e inabalável fé.
Conheci e convivi com algumas almas condenadas. Não fiz muito por elas senão dar-lhes uma lamparina (Venha para a luz...Karolaine). E, dos cegos por opção, me afastei.
Vez em quando vou ao céu, passo várias vezes pelo purgatório e já tive a sensação de estar no inferno, entretanto, não perdi o juízo, afinal. Deus, não sei falar sobre, tal nome, em um mundo tão concreto, me remete ao indefinível, intangível. Contudo, preciso crer que algo melhor que a espécie humana deva existir, afinal de contas - de novo a idosa dúvida - pra que tudo e todos aqui? Essa bomba relógio, Terra, ínfimo planetinha navegando no meio de uma galáxia gigantesca, habitado por seres viventes, dotados de razão bruta e sentimentos diversos e dúbios, amaldiçoados pela eterna busca de perguntas sem respostas.
Deus(?)... Aproveito agora ao citar seu nome, para desculpar-me pelas inúmeras vezes em que o tomei em vão. Foi mal, mas tem horas que só uma intervenção divina mesmo pra dar jeito. Vivo pedindo a ele proteção. Já deve estar usando o estoque reserva. Perdoa-me Pai pelos meus atos funestos e pelos males que não faço, mas penso ou desejo. Eu sei que o perdão divino é para os que não sabem o que fazem, é que às vezes nem eu mesma sei o que faço ou falo.
Procuro guardar-me para os domingos e festas. Os profanos de preferência, regados a vinho, acompanhados de amigos, boa música, e outras bilongas mais. "A vida necessita de pausas".
Sempre honrei e honrarei meus pais, embora seja o antônimo deles.
Já matei, sono, fome, vontade, tesão, saudade, tempo...e a arrogância do meu próximo ao desarticular suas verdades perfeitas e absolutas.
E pequei. Meu Senhor e Minha (Nossa) Senhora...inúmeras vezes. Fui contra a castidade. Tolerância e pudores nunca foram o meu forte. Hodiernamente tenho exercitado a tolerância, tentando sepultar aos poucos meu lado critico em prol da emergente espiritualidade. Mas não confundam tolerância com degustação de sapos.
Também furtei. A mim, certos prazeres, aos outros, o prazer em me ver fracassar.
E roubei ainda mais: flores, corações, olhares, atenção, poesias, canções, frases... Mas tudo por uma boa causa!
Por necessidade (causa própria ou não), já menti, levantei falso testemunho e/ou fui cúmplice. E quando foi, ou ainda é preciso, neguei e nego muitas vezes. Contudo, depois de fazer um balanço geral na vida, opto pela verdade, mesmo que inconveniente. Todos não proclamam por ela!? Então agüenta!
Já fui traída por um beijo, já me negaram várias vezes e também tentaram me crucificar. Como não me deixo ser pega como Cristo, dou sempre meu jeitinho de renascer antes do 3º dia.
Nunca desejei a mulher do próximo (até porque não é minha praia). Mas cobiço coisas alheias: inteligência, talentos, sabedoria, conhecimento, cultura, experiências...Porque apesar das minhas, eu quero ainda mais. Por isso, estou sempre junto aos bons, aos bons livros, e muitas vezes, às más companhias (são riquíssimas em experiências).
A gula...confesso - adoro boa comida.
A vaidade...confesso - adoro me sentir linda (?!).
A luxúria... confesso – ai, ai, faz um bem à pele...e o tônus muscular!
Avareza! É (esse meu sangue árabe!). Uma em especial, minha essência. Essa é só minha. Também...quem vai querer(?). E ainda tem a tal da caixa preta (as misérias e as virtudes nun saco só) que todo mundo carrega consigo, incólume, até o dia do ultimo suspiro.
Meu maior e melhor pecado: preguiça. Adoro! Principalmente numa terça-feira à tarde, enquanto todos trabalham, eu, em ótima e lúbrica companhia.
São Jorge é o máximo. Imaginem...o cara (de origem turca) “vive na lua” (segundo a cultura brasileira e africana: Ogum ou Oxossi) montado em seu cavalo, a matar dragões de hálito venenoso (histórias medievais).
Não acredito em santos. No máximo em pessoas iluminadas e que fazem um bem danado ao nosso mundinho quando por aqui passam.
Acredito em anjos, ou espíritos, pode dar o nome que quiser. Principalmente os que me cercam, protegem, e os que insistem em me obsediar. Tão ocupados!
Acredito em bruxas. Elas existem sim. Conheço um bom número delas.
Acredito em mim e nos meus ideais, meus paradoxos e idiossincrasias, na (in)viabilidade do ser humano, em justiça (...), paz (urgente), amor ao próximo e na tão falada, buscada, comentada, questionada, indefinível fé.
Acima de tudo, acredito que exista algo melhor que eu mesma e meus “irmãos”. Logo, nada me faltará (mas vou à caça da presa todo dia pra levar pra cria comer no jantar...).
Não sou católica, apostólica, tampouco romana. Não me comovem os “bons sentimentos” sazonais do Natal e não acredito no papai Noel (desculpa Loro).
Eu apenas creio. "Minha fé é meu jogo de cintura". Sou eu uma adorável pecadora. Uma transgressora sem culpas. Uma ovelha que não pertence a nenhum rebanho. Que faz promessas, juras, rogas e rezas. Que às vezes pragueja, mas bem menos que abençoa. Que tem seu próprio templo e busca a maldita felicidade. Não é isso que importa afinal?!
Será que Deus crê em mim?
Felicidades e facilidades, hoje, agora e sempre, e não só no ano que vem. Assim seja!